Traduzir Maria Eudoxia Mellão não é tarefa fácil. Ela é múltipla em sua arte. E sua vidasegue como um rio, desviando-se de pedras, transformando-se em cachoeira, mudando o trajeto com a leveza com que corre para o mar. O fim do caminho está lá: o mar; mas são tantos atalhos atraentes que desembocar aqui ou ali, embrenhar-se pelos igarapés, descobrir a beleza dos mangues ou mergulhar suave dentro de si mesma resulta em desviar-se do caminho, deixando que a atenção vagueie, de modo a passear pelas mais diferentes formas de expressão. Não se pode dizer que ela se resume a uma artista; foi também empresária, decoradora, cenógrafa, joalheira, escultora, designer de móveis, de moda... E é essa multiplicidade que a faz única: hoje pensa em cantar, retomando sua antiga paixão. Amanhã? Sem dúvida, sua mente curiosa apontará outro afluente para seguir.
Tudo o que cai em suas mãos vira alguma coisa. Ela é capaz de brincar com materiais e texturas tão díspares que só quem tem o olhar privilegiado consegue misturar com sucesso. E também é capaz de elaborar acessórios únicos com pedras, sementes, frutos; de criar esculturas com fios de seda que parecem raízes e de construir móveis e objetos com cascas de árvore, folhas de bananeira, palhas. Isso não é de agora. Desde sempre, ela escolheu materiais até então inusitados para trabalhar. Estava à frente de seu tempo – o artesanato que tramava nos anos 1980, hoje, décadas mais tarde, é cobiçado e aplaudido pelo mundo.
Menina de boa família, no sentido mais arcaico do conceito, cresceu na fazenda, em contato direto com a terra, as árvores, as plantas, os animais – e encantada pela biblioteca da mãe, que lhe abria páginas de sonhos e possibilidades, a ponto de ela querer ir atrás daquilo que lia, de abrir as asas e voar, livre. E foi.
Impossível dizer se foi a dificuldade de trabalhar com a inflação nas alturas (entre 1986 e 1994, o Brasil chegou a bater 1.000% de inflação anual), se foi o chamado da artista escondida dentro da empresária ou se foi sua inquietude que a levou para outros caminhos. Fechou a matriz e as sete franquias, mudou-se para Miami, nos Estados Unidos, onde abriu showroom e escritório de decoração. Foi ouvindo muitos nãos, aprendendo com eles e angariando clientes. Aplicou sua criatividade em casas e apartamentos e, quando voltou, o país era outro. Devagarinho, foi reconquistando seu espaço, uma luminária aqui, uma poltrona ali, colares cobiçados...
Extremamente low-profile (não era de bom tom alardear as próprias qualidades), seguiu criando sua arte, vendendo aqui e ali, experimentando os afluentes de seu próprio rio e se deixando levar por eles.
Contar, em livro, a história de Maria Eudoxia Mellão não é chegar ao fim do caminho, o mar – há muito que explorar para uma alma curiosa –, mas foi o jeito que ela encontrou de apresentar o passado para o futuro: relembrando os anos em que jovens brasileiros criativos começaram a limpar o mofo da ditadura e confirmando que sempre vale a pena quebrar a casca da proteção, se arriscar e seguir o fluxo de seu próprio rio.