Fênix Reinventada


Da seiva que percorre mundos se alimentam os trabalhos de Maria Eudoxia. Formas aqui reveladas são ovos que simbolizam a origem, mandalas e esculturas que representam o cosmos, espirais que explicitam o tempo.


Reinventando-se na criação de cada nova peça, despe-se das velhas roupagens de sua história como quem rasga a própria carne, imbuída da intuição – muitas vezes não mais do que dessa frágil certeza – de que há algo legítimo e urgente por baixo, chamando por atenção e cuidado. Um cuidado próprio. Rico e sagrado, como demandam as coisas de natureza profunda.


Quase como um cego que não percebendo a luz enxerga através e além das coisas, suas peças são estruturas arquetípicas revestidas – melhor dizendo – (re) veladas – de tramas que lhes conferem existência e sentido.


Mistério entre planos arquitetados e ossaturas semivestidas, cheios e vazios, ou como na origem, criados a partir da separação entre luz e trevas. Visão do “Terceiro Olho” que, partindo da forma arquetípica, desde a criação mística das coisas no muito antes, guia as mãos que seguem tecendo, tecendo, até dar consistência ao que não existia.


Epopeia do caos à ordem. Vice-versa, o contrário. Harmonia dinâmica nesse percurso épico. 


O que ela realmente estaria buscando? Corporificar a essência, talvez?

Quem é essa Mulher?


Traduzir Maria Eudoxia Mellão não é tarefa fácil. Ela é múltipla em sua arte. E sua vidasegue como um rio, desviando-se de pedras, transformando-se em cachoeira, mudando o trajeto com a leveza com que corre para o mar. O fim do caminho está lá: o mar; mas são tantos atalhos atraentes que desembocar aqui ou ali, embrenhar-se pelos igarapés, descobrir a beleza dos mangues ou mergulhar suave dentro de si mesma resulta em desviar-se do caminho, deixando que a atenção vagueie, de modo a passear pelas mais diferentes formas de expressão. Não se pode dizer que ela se resume a uma artista; foi também empresária, decoradora, cenógrafa, joalheira, escultora, designer de móveis, de moda... E é essa multiplicidade que a faz única: hoje pensa em cantar, retomando sua antiga paixão. Amanhã? Sem dúvida, sua mente curiosa apontará outro afluente para seguir.


Tudo o que cai em suas mãos vira alguma coisa. Ela é capaz de brincar com materiais e texturas tão díspares que só quem tem o olhar privilegiado consegue misturar com sucesso. E também é capaz de elaborar acessórios únicos com pedras, sementes, frutos; de criar esculturas com fios de seda que parecem raízes e de construir móveis e objetos com cascas de árvore, folhas de bananeira, palhas. Isso não é de agora. Desde sempre, ela escolheu materiais até então inusitados para trabalhar. Estava à frente de seu tempo – o artesanato que tramava nos anos 1980, hoje, décadas mais tarde, é cobiçado e aplaudido pelo mundo.


Menina de boa família, no sentido mais arcaico do conceito, cresceu na fazenda, em contato direto com a terra, as árvores, as plantas, os animais – e encantada pela biblioteca da mãe, que lhe abria páginas de sonhos e possibilidades, a ponto de ela querer ir atrás daquilo que lia, de abrir as asas e voar, livre. E foi.

Pioneira em sua Época


Pioneira em sua época, separou-se do marido, com dois filhos, num tempo em que “não se usava fazer isso”; foi trabalhar (coisa para “moças moderninhas”), assinou projetos de decoração, desenhou móveis e objetos, abriu lojas com um conceito novo para o brasileiro, stores que vendiam de tudo: de geleias a presentes, objetos descolados, itens de papelaria, utensílios para casa, enfeites. E que tinham um espaço gourmet para almoços rápidos ou chás da tarde – seria ela a precursora das pequenas lojas de departamentos? Mais uma vez, estaria ela à frente de seu tempo? Tudo leva a crer que sim. Eram outros tempos.


Nas décadas de 1980 e 1990, ela foi um case. Tudo o que inventava virava sucesso. Ela era o must, estava em todas as principais revistas do país e de fora, suas lojas viviam lotadas, suas criativas vitrines eram aguardadas como as do Natal de Nova York, suas bijoux estavam nos editoriais de moda, nos desfiles, nas mãos e pescoços das formadoras de opinião. Ela dava os primeiros passos no universo do que hoje é chamado artesanato de luxo.

Low-Profile


Impossível dizer se foi a dificuldade de trabalhar com a inflação nas alturas (entre 1986 e 1994, o Brasil chegou a bater 1.000% de inflação anual), se foi o chamado da artista escondida dentro da empresária ou se foi sua inquietude que a levou para outros caminhos. Fechou a matriz e as sete franquias, mudou-se para Miami, nos Estados Unidos, onde abriu showroom e escritório de decoração. Foi ouvindo muitos nãos, aprendendo com eles e angariando clientes. Aplicou sua criatividade em casas e apartamentos e, quando voltou, o país era outro. Devagarinho, foi reconquistando seu espaço, uma luminária aqui, uma poltrona ali, colares cobiçados...


Extremamente low-profile (não era de bom tom alardear as próprias qualidades), seguiu criando sua arte, vendendo aqui e ali, experimentando os afluentes de seu próprio rio e se deixando levar por eles. 


Contar, em livro, a história de Maria Eudoxia Mellão não é chegar ao fim do caminho, o mar – há muito que explorar para uma alma curiosa –, mas foi o jeito que ela encontrou de apresentar o passado para o futuro: relembrando os anos em que jovens brasileiros criativos começaram a limpar o mofo da ditadura e confirmando que sempre vale a pena quebrar a casca da proteção, se arriscar e seguir o fluxo de seu próprio rio.

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